ARTIGOS

PEREIRA DA COSTA: HISTORIADOR

Maurício Barreto Pedrosa Filho

Advogado/Sócio efetivo do IAHGP e IHO.

Ao pensar na História e naqueles que produzem literatura histórica me vem logo à mente os nomes do grego Heródoto e do inglês Hobsbawm. Mas não preciso ir tão longe para exemplificar historiadores que marcaram épocas e cujos trabalhos editados continuam a ser consultados. Falo aqui precisamente de Francisco Augusto Pereira da Costa, mais conhecido como Pereira da Costa, nascido no Recife em 1851, graduado em Direito, e que legou ao Brasil e ao mundo obra de extraordinária importância para o conhecimento do passado social, econômico e político de Pernambuco, os ANAIS PERNAMBUCANOS. Dividida em dez volumes, essa magistral obra cobre o período de 1493 até 1850, rica em conteúdo e informações, e que não se limita à constatação de fatos pretéritos, eis que o autor chega a interpretar acontecimentos encontrados em sua longa pesquisa, um modus operandi comum hoje entre os historiadores. Diferente da era hodierna, que segue ao ritmo da Tecnologia da Informação (TI), de acesso rápido a museus, bibliotecas, hemerotecas e arquivos públicos, conjunto esse facilitador dos trabalhos executados pelos investigadores da História e de outras ciências, Pereira da Costa iniciou os seus escritos ainda nos anos oitocentistas distante totalmente dessa realidade. Por isso, mais ainda elogiável o seu esforço solitário na consecução de tão vasta obra até hoje consultada por estudiosos de todos os lados. A História é uma ciência antiga sem a qual não se conhece o passado e a ação dos indivíduos no tempo, tampouco se compreende o presente, é necessária à formação cultural de um povo, por isso não merece ser relegada, muito menos ocultada, sob pena mesmo de se estimular a repetição de antigas práticas incivilizatórias, como foi o Apartheid na África do Sul. Ao lado disso, a sociedade moderna inserida em um contexto de rápida circularidade de ideias e imagens convive com grande oferta de serviços, a exemplo do mercado digital de livros, revistas, jornais, afora o turismo e entretenimentos (TV, cinema, etc). Ora, caro leitor, toda essa oferta de serviços atrai o apoio e a orientação daqueles que possuem cultura histórica para que não se cometam erros, distorções, desinformação quando da invocação de fatos, monumentos e personagens do passado, mormente através de campanhas publicitárias.  Seria tragicômico retratar D. Pedro II sem a sua barba, vincular a suástica hitlerista como símbolo do vetusto Partido Conservador britânico, ou atribuir aos canadenses o surgimento do rocknroll. Situações do gênero não devem ocorrer, jamais, sob pena de apagar a verdade histórica e espalhar desinformação a todas as classes. Com a devida vênia da Academia, sem desmerecer aqueles graduados e pós-graduados em História, isso nunca, até hoje muitas pessoas se dedicam a essa ciência sem formação acadêmica específica. Recordo que Hélio Silva era graduado em medicina (investigador do período Vargas com inúmeras publicações, dentre elas Os Tenentes no Poder), Nelson Werneck Sodré militar de carreira (dele a História da Imprensa no Brasil), e José Antônio Gonsalves de Mello era graduado em Direito (profundo conhecedor do Brasil holandês, dele Tempo dos Flamengos, entre outros) e todos adquiriram notoriedade com as suas obras. Vale salientar que a tentativa de regulamentar a profissão de historiador, através do PL nº 368/2009, não prosperou porque houve veto total do Presidente da República (Mensagem nº 222, DOU nº 79, 27.04. 2020), PL esse que albergava também historiadores sem formação acadêmica. Discutir o veto e a sua trajetória no Congresso consumiria muitas linhas, mas não consigo pensar diferente, a preservação da memória nacional, igualmente a pesquisa e produção historiográfica, merecem todo tipo de incentivo de parte do poder público, especialmente para estimular o surgimento de talentos capazes de legar às gerações futuras estudos históricos profícuos, tal como o fez Pereira da Costa. Pensemos em dias melhores, sobretudo nesse contexto pandêmico da Covid-19, que não escapará das lentes dos historiadores. PS – Parabéns ao Instituto Histórico, Arqueológico e Geográfico de Goiana, que completa 150 anos.

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